Disclaimer: Esse capítulo foi traduzido livremente como um treino de tradução, sem fins lucrativos.
Livro original: Spider-Man (O Homem-Aranha) por Peter David, baseado na screenplay original de David Koepp (2002). (Link da Amazon)
Prólogo
“Hora de acordar os mortos, baby!”
O Corvette tunado rugiu na rua principal do cemitério, cascalho explodindo embaixo dos pneus para todas as direções. Alguns esquilos, procurando por comida, freneticamente escalaram as árvores mais próximas enquanto o carro, com os faróis intensos, virou para a direita. A traseira balançou e as rodas giraram sob a terra e a grama por um momento antes de encontrar fricção na trilha estreita.
A trilha tinha sido projetada para procissões lentas e pomposas: um carro fúnebre, seguido por limosines ou carros simples carregando amigos e parentes entristecidos e angustiados. Não tinha sido projetada para carros turbinados e curvas rápidas, mas tanto o motorista quanto os passageiros do ‘Vette noturno não davam a mínima. Estavam ocupados demais rindo alto, apertando a buzina e acelerando o motor com tanto entusiasmo que até parecia que acabariam por cumprir seu propósito e forçariam os mortos a se levantarem em protesto.
Seus nomes eram Tyler, Keith e Daniel, e eles estavam alucinados. Tinham acabado de retornar de um jogo no estádio de Flushing. Foi uma disputa acirrada na prorrogação que o time da casa conseguiu superar bem no último momento, e os garotos estavam bem bêbados, então estavam se sentindo bem em relação ao beisebol em geral e a si mesmos em particular.
O ‘Vette tinha um pequeno amassado no para-choque traseiro, mas, fora isso, estava em perfeitas condições. Tyler, ao voltante, tinha decidido que queria o testar, e um dos melhores lugares para fazer aquilo era a rua principal fora do cemitério local, já que não era muito movimentada, especialmente à noite. Ao passarem por ali, no entanto, eles notaram que apenas um único cadeado, pendurado em uma corrente pesada, mantinha os grandes portões de ferro forjado fechados. Uma rápida raspagem com um alicate que Tyler mantinha escondido no porta-malas, e momentos depois eles tinham o cemitério iluminado pela lua todinho só para eles.
Os rapazes eram bem parecidos. Todos tinham as cabeças raspadas, e todos tinham testas igualmente largas e arqueadas que indicavam uma capacidade cranial consideravelmente avançada… caso se fosse um Cro-Magnon. Keith usava óculos escuros, ignorando o fato de que o mundo estava preto como um breu.
Eles eram, porém, facilmente distinguíveis, um do outro, através de marcas faciais O rosto de Keith estava manchado com uma maquiagem azul sólido, enquanto Tyler estava pintado em laranja. Essas cores coincidiam com as cores oficiais de seu time de beisebol favorito, e eles tinham enfeitado o rosto em sinal de solidariedade. Daniel tinha simplesmente raspado todo o seu cabelo, até a raiz.
Tyler acelerou até um cruzamento, hesitou só por um momento, e então virou rápido para a esquerda. O rugido do motor encheu o cemitério, mal abafando os urros de alegria dos rapazes no carro. Uma virada para a esquerda de novo, e então para a direita, disparando para todos os lados como o fantasma de um motorista morto num acidente em alta velocidade.
Acelerando pela rua, o ‘Vette se lançou por cima de uma fileira de sepulturas. Daniel de repente sentiu um leve declínio nos nervos e, do banco traseiro minúsculo em que estava espremido, bateu no ombro de Tyler.
“Para com isso, cara, não tem graça!”
“Eles estão mortos, cara, por que ligariam?”, retrucou Tyler.
“É, mano, deixa o cara dirigir!”, disse Keith, que estava sentado no banco do passageiro, mas tinha se virado para encarar Daniel.
De repente o ‘Vette parou bruscamente. Não aconteceu com um guincho dos pneus nem com um tremor abrupto de metal. Só parou, como se tivesse atingido uma parede de tijolos, embora, de algum modo, a frente não tivesse afundado.
“Tyler, você dirige mal pra caramba!”, urrou Keith.
“Não fui eu!”, gritou Tyler em protesto.
“Você que tá dirigindo, cara!”
“Não fui eu!”, repetiu. “Alguma coisa tá segurando a gente! Olha!”. Ele pisou fundo no acelerador e o motor rugiu. O carro deslizou de um lado para o outro, os pneus moendo a terra, mas ainda assim ele não se moveu.
A lua cheia, que esteve iluminando o cemitério, agora se escondia atrás de uma parede de nuvens, e o ar noturno parecia ainda mais frio.
“Eu vou sair pra ver o que está acontecendo.” Tyler destrancou a porta e a empurrou. Então empurrou de novo. “A porta não abre.”
Keith tentou empurrar a porta do seu lado e teve o mesmo sucesso. “Tá, cara, isso está esquisito…”
De repente Daniel apontou com um dedo tremulo. “O… O que é aquilo? Que merda é aquela?!”
Alguma coisa – algum tipo de fios estranhos, cinzentos, estavam cobrindo as janelas e o para-brisa. Eles estavam cegos. Cegos e presos.
“Tem alguma coisa lá fora!” gritou Daniel.
“Ah, é mesmo, ‘cê acha?” Keith, o mais velho, tentou soar sarcástico, mas apenas soou assustado.
A mente de Daniel estava a mil. “É… é um monstro! Algum tipo de criatura inseto alienígena! Está nos enrolando num casulo, para depois comer a gente!”
Tyler se virou para encarar o amigo. “Qual é a tua, é idiota?!” Mas a verdade era que ele esteve pensando exatamente a mesma coisa; ele só estava assustado e se sentia um babaca demais para dizer alguma coisa.
Foi então que o carro começou a tremer violentamente. Os rapazes gritaram, berraram, imploraram para que alguém – qualquer pessoa – os ajudasse enquanto o carro balançava de um lado para o outro.
Tyler soltou um grito tão alto que poderia ser ouvido do outro lado da ponte Whitestone, mesmo enquanto engatava a marcha. E então, com um ranger de metal, eles estavam livres, o para-choque traseiro sendo arrancado totalmente.
O portão de entrada ainda estava aberto, e eles o atravessaram a toda velocidade, buzinando como loucos, o que foi uma sorte, sendo a única coisa que os impediu de se espatifarem contra a lateral de um caminhão que se aproximava, transportando – apropriadamente – cervejas. O caminhão parou bruscamente assim que o ‘Vette o contornou. Em pouco tempo o cheiro de borracha queimada e os gritos aterrorizados dos três passageiros desapareceu no ar noturno.
No cemitério, tudo estava calmo.
Então uma figura vestindo azul e vermelho emergiu dos galhos de um dos grandes carvalhos, tão obscuro que parecia como se uma das sombras tivesse se separado da escuridão e tomado vida. Se moveu tão silenciosamente que a falta de som teria feito qualquer um observando pensar que, talvez, ele nem estivesse ali.
Seu corpo era musculoso, mas, ao mesmo tempo, extremamente bem proporcionado, e ele se movia com uma graça ágil e deslizante que mal parecia humana. Suas luvas e botas eram de um vermelho escuro, assim como a área que cobria seu peito e descia por seus braços. Sua máscara era da mesma cor, mas era interrompida por duas lentes que eram impenetráveis do lado de fora. De fato, qualquer um olhando para ele se perguntaria como ele sequer conseguia ver.
Finas teias brancas cobriam todas as partes escarlates do traje. E, em seu peito, bem acima de seu plexo solar, estava a imagem de uma aranha com as pernas esticadas. Se ele estivesse ali, simplesmente caminhando por uma rua principal em pleno dia, braços balançando casualmente ao lado do corpo, ele poderia ter se passado como o fugitivo de um circo. Mas aqui, na calada da noite, com apenas suas lentes visíveis enquanto a lua voltava a surgir por entre as sombras, ele parecia mais uma aranha em forma humana, criado a partir de forças obscuras que nenhum mortal qualquer poderia sequer começar a compreender, exceto em seus piores pesadelos.
Ele desceu até o chão, ainda silencioso, e examinou a área em que – só um pouquinho antes – tinha sido a cena de um pandemônio descontrolado. Encarando os traços de pneus que marcavam a terra, ele balançou a cabeça e se repreendeu mentalmente por não ter chegado mais cedo e, desse modo, ter feito um pouco mais.
“Mas… é sempre assim, não é,” disse suavemente.
Por mais que ele se repreendesse por não ter chegado mais cedo, pelo menos ele tinha chegado a tempo. O caminho do ‘Vette acelerado teria o levado diretamente sobre o único túmulo no cemitério que era importante para ele. Sua intervenção havia prevenido aquilo, interrompendo o carro em seu caminho. E, com sorte, os idiotas que estiveram dentro dele nunca mais sequer pensariam em colocar o pé naquele lugar novamente.
Ainda em silêncio, silencioso como um fantasma, silencioso como os túmulos, o mascarado se dirigiu até a lápide que era seu propósito ali, e se ajoelhou diante dela.
“Ei,” disse gentilmente em saudação. “Você os viu correndo? Bom show, não é?”
Ele estendeu a mão delicadamente até a lápide e deslizou os dedos sobre as letras. “Pelo menos você teve uma boa vista de tudo. Foi o que o cara da funerária prometeu; que você teria uma boa vista. Pagamos extra por isso. Mas valeu a pena.” Ele pausou ali por um tempo, como se não tivesse certeza do que dizer, ou mesmo do por que tinha vindo em primeiro lugar. “Me desculpa,” disse finalmente. “Eu… eu devia ter vindo falar com você mais cedo. Eu sei que não venho aqui faz um tempo. Mas eu… eu não tinha certeza do que dizer. Como começar a conversa, sabe. Mas… Aqui, dá uma olhada. Acho que isso serve para quebrar o gelo.” Ele se levantou e se virou no mesmo lugar, os braços estendidos para cada lado, como se fosse um modelo de passarela. “Gostou da roupa? Eu decidi entrar para a lista de melhor – e pior – malvestidos, tudo ao mesmo tempo. E os peitorais… nada mal, né?” e ele flexionou para provar seu ponto. “Quero dizer, tudo bem, eu não sou nenhum Arh-nuld, ou até mesmo Kevin Sorbo, mas eu já evoluí muito, certo? Não do modo como você imaginava que eu ia acabar, né? Eu acho…” O humor começou a sumir. “Eu acho… que nenhum de nós acabou como achávamos que íamos acabar, não é.”
Então o mascarado se afastou e pousou uma mão contra o peito com ar de surpresa.
“Quem sou eu, você pergunta?” disse em uma surpresa zombeteira, como se uma voz se dirigisse a ele do túmulo. Ele se inclinou para a frente e continuou num tom surpreendentemente descontraído. “Quer mesmo saber? A minha história não é para quem não aguenta emoções fortes. Se disseram que é uma história feliz… Se disseram que eu era apenas um cara comum e despreocupado…”
E então sua voz tremeu por um momento, e ele se forçou a continuar, “… mentiram.”
Lutando para se recompor, para recapturar aquele ar despreocupado de joie de vivre que caracterizava sua personalidade fantasiada, ele deu uma cambalhota, fazendo uma parada de mão com apenas a mão esquerda. “A minha história,” ele disse, como um mestre de cerimônias incentivando todos os espectadores a ouvirem, como se ele estivesse se dirigindo a todos os outros túmulos ao seu redor, “é uma história de dor e tristeza, anseio e sofrimento, raiva e traição. E tudo isso só cobre os anos de ensino médio. Mas eu garanto… que como toda história que se preze… é tudo por causa de uma garota…”
Exceto… no começo… não havia garota nenhum. Só havia a dor e a tristeza… e a perda…
… e a aranha…

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