terça-feira, 23 de junho de 2026

Processo de Escrita - Desenvolvendo diálogos

 

Hoje vamos falar sobre diálogos~

Se ignorarmos o worldbuilding por um momento, hehe, escrever diálogos é minha parte favorita do processo de escrita! Eu sempre achei essa parte mais fácil do que qualquer outra coisa, sendo as conversas entre os personagens as primeiras palavras que eu coloco no papel, antes de qualquer outra parte da história.

Honestamente, eu não acredito que meus diálogos sejam lá grande coisa, porém, eu ainda sinto que consigo escrevê-los de modo natural com surpreendente facilidade, ou pelo menos com mais facilidade que outros escritores que eu conheço pessoalmente (como ressalva, eu já menciono que nenhum de nós é um escritor publicado tradicionalmente, mas ainda assim...).

Por isso eu pensei em falar um pouco sobre isso e dividir algumas das dicas e métodos diferentes que eu uso para escrever essa parte das minhas histórias, com a esperança de que isso possa, de alguma forma, ajudar você em seu processo criativo!

Antes de tudo, devemos pensar o que significa o diálogo falado e a sua importância na história que você está escrevendo. Algumas histórias possuem páginas de diálogos, que são tão bem feitos quanto importantes, enquanto outras podem passar páginas e páginas sem nenhuma fala de um personagem sequer e ainda assim funcionar perfeitamente.

Aprender a mesclar de modo natural a narrativa e os diálogos é uma habilidade que todos os autores devem treinar e desenvolver. Especialmente se sua história for guiada pelo personagem ou por um grupo específico de personagens, em que os acontecimentos da narrativa não são o foco principal além do modo como esses influenciam os personagens e os mudam através da história, escrever bons diálogos é extremamente importante.

Então aqui estão algumas dicas para você experimentar durante seu processo de escrita... 

1. Use pontuação e descrições de fala conscientemente.

Algo especialmente importante para escrever diálogos interessantes, é criar conversas que fluam de um modo confortável, permitindo que o leitor leia com facilidade, sem precisar pensar muito para identificar quem está falando, como o personagem está falando, o que ele está sentindo enquanto fala (sejam esses sentimentos verdadeiros ou falsos), e, de um modo meta (fora do texto), a intenção do autor e o que ele quer expressar por meio daquele diálogo.

Um modo de transparecer tudo isso, é prestando atenção no uso da pontuação e a descrição de fala. A pontuação correta pode ajudar a apresentar o que o personagem deve estar sentindo ou pensando através da fala; e utilizar verbos dicendi específicos para expressar o modo como o personagem fala também ajuda a melhor desenvolver a imagem mental da cena.

Ainda assim, é preciso fazer tal coisa de modo consciente, encontrando um equilíbrio entre a fala e narrativa. A repetição de verbos dicendi por exemplo, pode tornar os seus diálogos cansativos e um tanto chatos de ler.

- Eu não gosto disso - disse Maria.

- Disso o que? - disse João.

- Disso tudo - disse ela.

- Ah, não é tão ruim assim - disse ele. 

Fica meio cansativo e sem graça, não é? É difícil realmente saber com que tom os personagens estão falando, o que Maria e João realmente sente em relação a esse "isso", além das palavras óbvias que podemos ler no diálogo. Então, que tal experimentarmos mudar tanto o verbo descrevendo a fala, quanto também a pontuação, pra dar um pouco mais de expressão para esse diálogo...

- Eu não gosto disso... - disse Maria.

- Disso o que? - perguntou João. 

- Disso tudo! - exclamou ela.

- Ah, não é tão ruim assim.

Muito melhor, não acha? Mudando a pontuação e o verbo, e até mesmo excluindo um deles, podemos dar mais vida e expressão para as falas, assim como para os personagens.

Isso não quer dizer, é claro, que mudar a descrição da fala em cada linha seja totalmente necessário! Às vezes, mudar demais pode fazer com que seu texto fique uma confusão. Aprender a equilibrar o uso de algo simples como "disse" com outros verbos mais expressivos é algo que vai te ajudar muito em apresentar diferentes emoções a partir do diálogo.

Pensando nisso... 

2. Aprenda a equilibrar descrição de fala com descrição de ação.

Um outro modo para retirar a "monotonia" de uma conversa, é se, no lugar de descrever o ato da fala do personagem, a gente colocar uma descrição da ação que ele está fazendo naquele momento. Isso, porém, também deve ser feito de modo equilibrado.

Vamos experimentar adicionar um pouco de ação no exemplo anterior... 

- Eu não gosto disso... - Maria agarrou a barra da blusa de modo nervoso.

- Disso o que? - perguntou João, entrando na sala e fechando a porta.

- Disso tudo! - Ela atirou as mãos para o alto, exasperada.

- Ah, não é tão ruim assim - João sorriu, sem jeito.

O exemplo acima não é incorreto, e muitos diriam que se focar mais na ação do personagem do que descrever o fato de que eles estão falando (algo que é bem claro pelo texto em si), porém

3. Tente diminuir um "zigue-zague" sem evolução e focar no objetivo da conversa

Às vezes, uma conversa pode ser como um jogo de tênis, em que você se encontra olhando de um lado para o outro, de novo e de novo, acompanhando a bola enquanto essa está em cada lado da rede. Esse "zigue-zague" é esperado, especialmente em diálogos entre dois personagens.

Porém, o "zigue-zague" que eu estou mencionando aqui, não tem relação ao ritmo do diálogo, mas sim à repetição de informação sem necessidade ou que leva o diálogo a acabar sem um final objetivo. Em uma situação como essa, a repetição causa com que o leitor se perca na conversa, o forçando a voltar para o início com o único pensamento em sua mente sendo "espera, do que estávamos falando mesmo?".

- Ei, posso te perguntar uma coisa? - perguntei.

- Claro, o que foi? - falou Guilherme. 

- Eu só estava pensando sobre a apresentação amanhã.

- E?

- Eu estou um pouco nervosa - suspirei.

- Nervosa? - Guilherme riu. - Fala sério.

- É sério.

- Ninguém ensaiou mais para essa apresentação do que você, Clara. 

Corretamente falando, não há nada de errado nesse diálogo, ele ainda funciona e faz sentido. Porém, veja como a conversa se foca demais em repetir a mesma informação múltiplas vezes, com praticamente as mesmas palavras, se demorando a chegar a um desfecho simplesmente por que não se permite ser concisa e direta. Em outras palavras, isso é um exemplo de tomar um caminho mais longo, "ziguezagueando" ao invés de ir em linha reta.

Ao criar um diálogo, que funciona como transmissão de informação ou simplesmente com uma conversa casual entre personagens, é preciso encontrar um ritmo e seguir um "momentum", de modo que a conversa tenha, pelo menos, um significado e um objetivo, a qual os personagens devem chegar no fim da discussão. 

Por exemplo... 

- Ei, posso te perguntar uma coisa? - perguntei.

- Claro, o que foi? - falou Guilherme. 

- Eu só estava pensando sobre a apresentação amanhã... estou um pouco nervosa.

- Nervosa? - Guilherme riu. - Ninguém ensaiou mais para essa apresentação do que você, Clara. 

Às vezes, mais é menos. Não há a necessidade de repetir uma informação (ou palavra), de modo redundante, para chegar a algum lugar. Ao escrever seu diálogo, tente sempre pensar no significado da conversa e o que ela deve apresentar, e se foque em tentar encontrar o modo mais compreensível de chegar lá.

Porém, isso não quer dizer que esse "zigue-zague" é inútil ou nunca deve ser usado! Pelo contrário! 

Você pode muito bem usar essa repetição para apresentar um personagem que está tentando impedir que a conversa siga em frente! Por exemplo, se você quiser escrever sobre um personagem que está tentando esconder alguma coisa, repetindo as mesmas perguntas, atirando as mesmas questões para o outro personagem, para impedir que eles cheguem a algum lugar, que descubram ou que arranquem mais informações dele.

A ideia, no geral, quando se escreve seja ficção, não ficção, textos acadêmico em geral, e outros, o seu foco deve ser sempre tentar transpassar para seu leitor algo de modo eficiente. Tornando o diálogo mais conciso e enxuto, de modo significativo e bem pensado, pode ajudar muito no ritmo da leitura, permitindo que seu leitor tenha mais facilidade e uma melhor compreensão do que você quer dizer, além de tornar a leitura bem menos cansativa ou até mesmo chata.

4. Emoções? Introspecção? Aprenda a "mostrar, não contar".

Todos conhecemos a frase "mostre, não conte" ("show, don't tell"), mas como podemos usá-la quando o foco é o diálogo?

Através da fala de um personagem, como mencionado anteriormente, seja por suas palavras, seja pela pontuação, ou pela descrição da ação que este personagem está performando, podemos ter uma ideia do que ele está pensando ou sentindo. Porém, se pensarmos mais a fundo, quantas vezes no nosso dia a dia nós ouvimos pessoas falando, em detalhes, o que eles pensam e o que estão sentindo?

Por exemplo...

- Eu odeio ter que dizer isso... - Luana abaixou o olhar, encarando os pés. - Mas o Paulo foi embora ontem. Ele me disse para não te contar...

- O que? - Viviane a encarou, chocada. - Não pode ser! Paulo disse que nunca iria embora desse jeito, não sem me avisar antes! Não pode ser verdade!

E agora uma outra versão...

- Eu odeio ter que dizer isso... - Luana abaixou o olhar, encarando os pés. - Mas o Paulo foi embora ontem. Ele me disse para não te contar...

Os olhos de Viviane se arregalaram e de repente o mundo pareceu girar.

- Não... não pode ser... - sussurrou, se apoiando contra a porta. - Ele nunca iria embora sem me avisar.

Ambas as construções são corretas, porém, lendo cada um, qual na sua opinião apresenta de modo mais poderoso o choque que Viviane sentiu, além da descrença em sua voz em resposta ao que Luana disse?

Utilizando a descrição de uma reação física e escrevendo a fala da personagem de um modo específico, podemos apresentar uma imagem mais definitiva e mais visualmente apelativa do que ser simplesmente informado com uma simples palavra descritiva, que a personagem está chocada com a revelação. Sim, Viviane fala pouco na segunda versão, mas isso é por que sua reação já nos dá todas as informações que precisamos ter.

E, uma vez sabendo disso...

5. Aprenda o uso correto da omissão.

Durante sua revisão e edição do manuscrito original, fazemos algo que é chamado "podar/cortar o excesso", e além de remover frases desnecessárias ou repetitivas na narrativa, fazemos o mesmo com o diálogo durante esse processo.

Em outras palavras, não é sempre necessário utilizar descrições ou verbos dicendi depois de cada fala. Aprender a equilibrar quando usar e quando omitir vai ajudar você a escrever de modo mais direto, e especialmente, vai fazer a leitura muito mais ativa e fácil para o leitor.

Assim como tudo mencionado anteriormente, porém, a omissão deve ser usada de modo deliberado e consciente, mas quando você aprende a apresentar a fala de um modo concreto, permitindo que seus personagens tenham um modo de falar diferente e único de cada um, isso facilita ainda mais o uso da omissão sem fazer com que seu leitor se perca!

Um modo experimentar dar uma voz diferente para cada personagem, é usando um vocabulário especifico, ou pontuações específicas, repetir palavras ou termos, ou até mesmo adicionar alguma característica única para seu personagem (como gaguejar ou ter a língua presa).

Então, aqui estão algumas dicas para desenvolver diálogos que fluam de modo fácil, eficiente e que permitam que seu leitor aprecie a leitura de um modo que não soe chato ou pouco interessante. Eu sei que esse post foi bem mais teórico do que qualquer coisa, porém, e por isso eu pretendo ainda fazer um post com alguns métodos pessoais que eu uso para escrever diálogos, que vai se focar mais na prática de escrever mesmo!

Eu espero que esse post tenha ajudado de algum modo, ou que sirva como o primeiro passo para você experimentar algo novo! 

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